Crer & Observar: Uma História

Em Jesus confiar, sua lei observar,
Oh! que gozo, que bênção, que paz!
Satisfeito guardar, tudo quanto ordenar,
Alegria perene nos traz.
“Crer e observar”, Hino 301 do Cantor Cristão

Iniciei este blog há cerca de três anos, com o intuito de registrar pensamentos que me pareciam dignos de serem preservados para leitura posterior. O título que escolhi, Crer e Observar, remete a um hino cristão evangélico de mesmo nome, composto originariamente em 1887 como “Trust and Obey”, com versos do reverendo presbiteriano John H. Sammis, e traduzido para o português pelo missionário batista Salomão Luiz Ginsburg. Foi este o primeiro hino cuja partitura consegui executar ao piano, sob as instruções do pastor Gilberto Stéfano, tendo eu então dez, onze anos de idade, na Igreja Batista de Gália, cidade no centro-oeste paulista onde nasci e vivi até poucos anos atrás.

A vida toda o hino “Crer e Observar” tem me acompanhado. A relação íntima que seus versos estabelecem entre aquilo em que se acredita e aquilo que se pratica veio a ser, talvez, o elemento central das minhas reflexões ao longo dos meus anos de aprendizado, e é assim ainda hoje. Para mim, uma resposta à questão da coerência entre fé e obediência se faz imprescindível para que, afinal, seja possível afirmar o valor do cristianismo como um todo. A tão recorrente acusação de hipocrisia lançada sobre os cristãos — o que inclui a mim, naturalmente, e também a minha família e meus amigos mais queridos — nunca me deixou à vontade, primeiro porque sabia, por experiência própria, que nela havia muito de plausível.

Não que eu não conhecesse as argumentações teológicas acerca da depravação humana. Cresci numa igreja direta e orgulhosamente fundamentada no protestantismo batista do sul dos Estados Unidos, e a devida insistência no versículo-chave da carta do apóstolo Paulo aos romanos — “Porque todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus” (3.23), na impositiva tradução de João Ferreira de Almeida — regulava qualquer discussão acerca de méritos da humanidade decaída da qual todos, desgraçadamente, fazemos parte. O pecado é quem nós somos, uma afirmação cuja confirmação parece não exigir outros esforços que não o de contemplar o próprio espelho.

E, no entanto, o mesmo apóstolo Paulo que declarava a culpa universal também reivindicava a possibilidade de libertação do pecado. “Porque a lei do Espírito de vida, em Cristo Jesus, me livrou da lei do pecado e da morte”, escreve ele adiante na carta (8.2). A “lei do pecado” a que se refere é aquela mesma que o faz desejar o bem e cometer o mal, a terrível condição sintetizada em seu clamor: “Miserável homem que eu sou!” (7.24) — sim, é dessa lei perversa que a “lei do Espírito de vida” o livra. Foi o próprio Jesus que nos prometeu, nas palavras registradas no Evangelho de João, uma vida de plenitude, uma vida de todo contrária a essa vida miserável presa ao pecado (10.10). Acontece algo com aquele que, pela fé, se une a Cristo que o transforma numa nova pessoa, e essa é a realidade primordial da experiência cristã, a saber, a conversão de uma determinada condição para outra muito mais conformada com os desígnios de Deus, identificados no estilo de vida que Jesus professou em suas palavras e em suas ações nos breves porém intensos anos em que conviveu em nosso meio e transmitidos através dos séculos pelo Corpo de seguidores que ele estabeleceu, a sua Santa Igreja.

As dúvidas que então me afligiam se resumem, assim, no inevitável paradoxo da prática da fé: Por que é que nós, cristãos, declaramos o compromisso com Cristo e, no entanto, vivemos não raro de forma antagônica àquilo que afirmamos ser a vontade divina? Que conversão foi essa, cujos efeitos visíveis pouco nos distinguem dos descrentes, chegando mesmo a depor contra aquilo que professamos?

Basta pensar, por exemplo, nas palavras de Friedrich Nietzsche, o mais brilhante detrator do cristianismo, em sua obra apropriadamente intitulada O Anticristo: “No fundo, houve tão somente um cristão, o qual morreu na cruz”.

***

“A existência precede a essência.” A formulação clássica do existencialismo foi cunhada por seu principal porta-voz, Jean-Paul Sartre, numa conferência no Club Maintenant, em Paris, no ano de 1945. (Posteriormente, Sartre lamentaria o conteúdo simplório dessa conferência, que, depois de impressa, se tornou um opúsculo bem divulgado: era inteligível fora do círculo acadêmico, ao contrário, por exemplo, das obras de Martin Heidegger, tido como o real precursor do existencialismo.) O significado, grosso modo, é este: “O homem primeiro existe, se descobre, surge no mundo; e só depois se define”. Ou seja, não existe nenhum fio condutor que determine o que o homem virá a ser — nenhum desígnio divino, nenhuma inclinação metafísica, nem mesmo uma natureza pré-estabelecida, mas unicamente a liberdade humana. Ou, noutra máxima popular do existencialismo: “O homem está condenado a ser livre”.

Nos anos em que cursei Comunicação Social na Unesp, em Bauru, vi-me atraído pela filosofia existencialista. Eu então já não frequentava igreja nenhuma havia alguns anos, desde que uma nebulosa controvérsia envolvendo antidepressivos, desrespeito a hierarquias, histeria purificadora, liderança passiva e uma dose nada desprezível de pecado não confessado resultou na minha exclusão e na exclusão de toda a minha família do corpo de membros da Igreja Batista de Gália. Não cheguei a rejeitar a Cristo ou a existência de Deus, e nem mesmo repudiava o conceito de Igreja: ainda me lembrava com ternura das aulas da escola dominical, na infância, e dos equilibrados sermões do pastor Gilberto, que havia muito pastoreava outra igreja. Mas já não queria nada com aquilo. Se alguma verdade existia — algo de que eu não tinha nenhuma certeza —, não a encontraria ali, naquela tacanhice sépia e empoeirada da Igreja institucionalizada.

Assim, tomei por princípio, ainda que de modo inconsciente, suspeitar dos discursos totalizantes, que se arrogavam uma voz de autoridade em meio a este mundo caótico. Por essa razão, ao contrário de meus colegas de universidade, nunca exerceram atração sobre mim nem o marxismo, nem o darwinismo, nem o freudianismo, com seus dogmas quase religiosos e suas soluções incontornáveis. Inclinava-me mais a pensar no mundo como um lugar desprovido de sentido, e as teorias que buscavam explicá-lo sempre se revelavam aquém do intento. (E, cabe ressaltar, eu praticava à risca essa concepção de mundo: foi o período mais egoísta, inconsequente e destrutivo de minha vida. O passado, para mim, se resumia à lembrança de sensações prazerosas ou desgostosas, e com o futuro eu sequer me preocupava. Existir equivalia ao presente, e nada mais.)

Meu único guia, nesta época, era a beleza artística, sobretudo a que expressava a angústia de viver num mundo carente de sentido. Passei a dedicar horas aos livros de Sartre e Camus, e também à literatura desencantada de Philip Roth, John Updike e J. M. Coetzee. Assisti a quase toda a filmografia de Ingmar Bergman, bem como a de seu discípulo cômico, Woody Allen. A música desoladora do Radiohead continuava, desde a adolescência, a modular minha visão de mundo: o homem num embate contínuo para manter a sanidade e a individualidade em meio à força opressiva da padronização. O ímpeto que a filosofia existencialista despertara em mim agora me levava, por meio da arte, para cada vez mais longe das dúvidas próprias da juventude, rumo ao inóspito, tortuoso e maravilhoso país dos paradoxos e das contradições.

Pois foi justamente a arte que me encaminhou de volta para Deus.

***

Devo, antes de prosseguir, registrar uma observação. Aqui, não estou relatando minha história de conversão, a qual pouco teve de maturação intelectual e muito mais se assemelhou a um clamor profundo e desesperado por salvação. Um dia, quem sabe, conseguirei fazê-lo, mas ainda não me disponho a abrir a janela da minha alma e permitir que outras vejam a bagunça que reside ali dentro. Antes, meu esforço neste texto é, entre outras coisas, procurar descrever, mesmo que de modo desordenado e provisório, os caminhos que trilhei até alcançar a minha compreensão atual da relação existente entre fé e obediência. Já tratei desse assunto em outras postagens do blog, e por certo não será a última vez que o farei.

Se é possível assinalar o momento preciso em que a arte se tornou, para mim, mais que o retrato da falta de sentido do mundo, eu diria que foi a leitura das páginas finais de Anna Kariênina¸de Liev Tolstói (numa noite na biblioteca da Unesp em que, algo recorrente à época, eu não compareci à aula). Muito se fala, com razão, do drama moral de sua adúltera protagonista, mas a obra só se torna completa pelo relato paralelo de Liévin, uma espécie de alter ego do autor. Pois, enquanto a história de Anna nos remete às consequências implacáveis de nossas escolhas, a trajetória de Liévin nos lembra, também, do que significa uma vida sem direção, tendo a si mesma como fim.

Dos tantos elementos formativos importantes que Anna Kariênina produziu em mim, devo destacar a capacidade de enxergar quão frívola era a minha própria vida, então. Naquele que se norteia em si mesmo há um vazio tão tremendo, e de fato um desespero ainda maior, que não tenho por que não entender o desprezo que o Übermensch nietzschiano sentiria diante da fraqueza e carência admitidas por aquele que se submete aos paradoxos (às tolices) do cristianismo. E, no entanto, o que é revelado a Liévin no final da obra, depois de seguidos episódios de expectativas frustradas, é que a fé não torna a vida mais simples, mais confortável e, cabe dizer, nem sequer mais explicável: o sol que nasce e o sol que se põe dia após dia persiste o mesmo. Algo, porém, acontece quando reconhecemos, no fundo da alma, a existência de Deus. A luz que ilumina os caminhos que tantas vezes trilhamos passa a reluzir de modo diferente.

A conversão de Liévin, da incredulidade para a credulidade, relatada brilhantemente pelo gênio de Tolstói, foi justamente o salto de fé (como expressou Kierkegaard), o tipo de revelação de que carecia a arte — cínica demais, desencantada demais — que até então formava meu espírito. Pois, agora eu entendia, mais fácil é tomar a si e a suas próprias experiências como bússola do que reconhecer a vida que só pode ser engendrada naquele que é o Eterno e o Criador da Vida e que, todavia, a nós se assemelhou em Jesus Cristo, o Homem Divino. Pela primeira vez, eu sentia o ânimo de, na falta de uma expressão melhor, poder existir. Há uma realidade, que não coube a mim criar e que não depende de mim para assim prosseguir, na qual eu posso ser conforme um propósito maior — e, em virtude do que havia sido minha vida até então, considerei isso uma dádiva sem igual.

Tamanha bênção, é claro, ainda assim não solucionava a questão que insistia em desamarrar meus cadarços: como devo viver a vida que posso viver?

***

Nenhuma resposta definitiva e abrangente pode ser oferecida aqui. Por certo, com base nos pressupostos da teologia cristã, posso orientar toda a minha conduta. Ainda assim, a tensão entre teoria e prática permanece, sobretudo porque esses mesmos pressupostos incitam interpretações as mais variadas, e os esforços hermenêuticos dos cristãos são, não raro, contraditórios e incoerentes. Além disso, persiste em mim, talvez como resquício da influência existencialista, um desalento em relação a todo tipo de norteamento alheio, incluindo o da Igreja. De alguns estragos nós nunca nos recuperamos.

Se há alguma esperança, no entanto, ela reside justamente no entendimento dessa tensão entre teoria e prática que, em outras palavras, é a própria tensão entre fé e obediência. É nossa tendência contrapor, até por questões didáticas, elementos opostos ou binários. Assim, acreditamos ser necessário primeiro alicerçar as colunas teóricas que, então, sustentarão os ornamentos da conduta prática. Bastaria, portanto, descrever e ensinar corretamente as verdades da fé para que seus efeitos se tornassem visíveis na vida de seus adeptos — solução que, como é bem evidente, dificilmente faz jus à realidade.

Foi na leitura de Discipulado, do teólogo Dietrich Bonhoeffer, que as linhas começaram enfim a se desemaranhar. No estágio mais recente de minha vida, após concluir a universidade, tornei-me editor de livros da editora Mundo Cristão e, em 2016, publicamos uma nova tradução dessa que é, a meu ver, a obra literária mais relevante do cristianismo do século XX. Eu já conhecia o livro anteriormente, mas, ao trabalhar junto ao texto original, em alemão, finalmente deparei com alguma possibilidade de descrever em termos adequados uma saída para o obstinado problema da relação entre teoria e prática — isto é, entre fé e obediência, crer e observar.

Muito pode ser dito a respeito de Discipulado, mas aqui me cabe sintetizar o ponto de vista de Bonhoeffer reproduzindo sua famosa fórmula: “Só o que crê é obediente, e só o que é obediência é que crê”. Em outras palavras, simplesmente não existe, no cristianismo, tensão alguma entre entre teoria e prática. “É preciso praticar a obediência a uma ordem concreta, a fim de que possa haver fé”, diz Bonhoeffer. “Tudo depende do primeiro passo.” Isso significa que, se em uma conjectura qualquer eu me vir diante de uma decisão a ser tomada, é o passo de obediência/fé em si que me permitirá prosseguir caminhando em obediência/fé, em conformidade com a vida que o Eterno e Criador da Vida engendra em nós quando a ele nos submetemos.

Sim, tudo isso parece ser contraditoriamente abstrato, demasiadamente teórico. Bonhoeffer escreve com admirável economia, e cada termo utilizado condensa amplos e complexos significados. Em minha vida, porém, a compreensão de que fé e obediência são inseparáveis foi a lição mais simples que eu poderia ter aprendido, porque os dilemas da existência se colocam à nossa frente o tempo todo, e é premente a necessidade de agir concretamente, com responsabilidade. Eu já não acredito na visão de mundo existencialista e já não posso desprezar as consequências do que faço, e também já não espero que a vida seja meramente um paradoxo insolúvel, artisticamente interessante e, no entanto, desprovida de conteúdo espiritual. Agora, eu creio na existência de um Deus que, ao se revelar a nós em Jesus Cristo, nos informou o conteúdo da vida plena e verdadeira, e nos possibilitou — graças sejam dadas! — vivê-la de fato.

E, com efeito, hoje eu vivo melhor do que vivia antes. Sei que essa é uma afirmação sempre temerária, porque resvala na soberba e se predispõe a ser contrariada, mas sob muitos critérios eu não posso negar a transformação constante que Deus vem efetuando em mim. Os caminhos desajuizados e destrutivos ficaram à distância, e muito embora eu esteja por vezes envolto pelas trevas que rodeiam a todo cristão, há sempre uma Luz a me guiar e confortar. Muito do caminho à frente que ela ilumina continua enevoado, impreciso, mas meus pés não podem vacilar, nem para um lado, nem para o outro, e assim sigo adiante.

“O próprio Criador predestinou que o critério de todo comportamento humano fosse não a utilidade, mas a justiça”, escreveu John Ruskin. “Ninguém nunca soube, nem pode saber, qual será o resultado de determinado ato, ou de uma série de atos, seja para ele ou para os outros. Mas cada um de nós pode saber qual ato é justo e qual não é.” Crer e observar, tudo quanto Deus ordenar: verdades que, por meio do velho hino, me acompanham desde a infância e me revelam o próprio sentido da vida .

 

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O Livro da Vida

(Por razões diversas, que incluem abençoadas reviravoltas na vida familiar e o cansaço de meses acumulados sem férias — apenas algumas semanas adiante —, não consigo sequer imaginar a possibilidade de escrever algo digno de ser registrado aqui. Mas, a fim de não perder de vez os poucos leitores que este blog possa ter, publico abaixo os textos de introdução que redigi para cada um dos três volumes de O Livro da Vida, uma versão especial da Nova Versão Transformadora lançada pela Sextante em parceria com a Mundo Cristão. São textos simples e breves, visando a um público pouco familiarizado com as Escrituras.)


1. CRIAÇÃO & HISTÓRIA (Gênesis a Ester)

Quem somos? De onde viemos? Para onde vamos? A Bíblia Sagrada apresenta respostas para algumas das principais perguntas da existência humana. Ela nos diz algo surpreendente: não somos frutos do acaso, mas obras-primas de um Deus todo-poderoso, concebidas para governar sua bela criação.

Em pouco tempo, porém, a humanidade não se mostra digna desse privilégio e se afasta de seu Criador. Passa a viver alienada dele, entregue a seus próprios impulsos e desejos. Deus, então, inicia um longo processo de restauração desse relacionamento por meio de um povo escolhido, os descendentes de Abraão.

É essa a narrativa que o leitor conhecerá neste volume de O Livro da Vida, que contém duas seções principais. A primeira é a Torá, ou Pentateuco, que reúne os cinco livros iniciais das Escrituras (Gênesis a Deuteronômio). Eles relatam o princípio da humanidade e a formação do povo de Israel, incluindo as leis e instruções que regerão sua conduta de vida.

A segunda é o conjunto de livros conhecido como Históricos (Josué a Ester), que narram o desenvolvimento dos israelitas após sua libertação do Egito. Eles primeiro se estabelecem na terra de Canaã, depois formam uma monarquia e, por fim, como consequência de sua infidelidade a Deus, acabam deportados e exilados.

A história de Israel é a história de todos nós. Ela é um retrato impressionante e atemporal da condição humana e de seu relacionamento ancestral com Deus.

2. ADORAÇÃO & SABEDORIA (Jó a Cântico dos Cânticos)

Se no primeiro volume de O Livro da Vida aprendemos quem somos e qual o sentido de nossa existência, neste descobrimos como, afinal, devemos viver. Aparentemente, temos duas escolhas: seguir nossos instintos e fazer o que nos convém ou guiar-nos pelas orientações do Criador do Universo.

A opção advogada pela Bíblia é clara. Só o verdadeiro Deus oferece o caminho da vida; sem ele, perdemos a direção. Esse marcante contraste é o tema central deste volume, composto de duas seções. A primeira traz os chamados livros Poéticos (Jó a Cântico dos Cânticos), que incluem Salmos, uma compilação de hinos de louvor e súplica a Deus, e os Provérbios, uma série de instruções breves e valorosas para a vida prática.

Já a segunda seção (Isaías a Malaquias) apresenta as mensagens dos porta-vozes de Deus ao povo de Israel, os Profetas. Contundentes e enfáticos, eles conclamam os israelitas a deixarem para trás a idolatria e a imoralidade e se voltarem para o único Deus.

Essas duas seções encerram o Antigo Testamento. Lidas em conjunto, oferecem a sabedoria necessária para viver segundo a vontade de Deus e evidenciam as consequências reais de não fazê-lo.

3. JESUS & IGREJA (Mateus a Apocalipse)

Toda a história da Bíblia — e, vale dizer, da própria humanidade — sofre uma reviravolta sem igual neste terceiro volume de O Livro da Vida. O protagonista enfim entra em cena: Jesus Cristo. Ainda que alusões apareçam por todo o Antigo Testamento, é aqui, no Novo Testamento, que de fato somos apresentados a ele.

O nascimento de Jesus, seus ensinamentos, sua crucificação e ressurreição são narrados nos Evangelhos de Mateus, Marcos, Lucas e João. Eles nos revelam Jesus como o Messias que veio ao mundo para anunciar a mensagem do reino de Deus e perdoar os pecados da humanidade. Nada mais seria o mesmo depois da vinda dele.

De fato, os demais livros que compõem este volume se ocupam de narrar como o mundo foi transformado por Jesus. Atos, por exemplo, é um relato histórico de como seus seguidores formaram a Igreja e deram continuidade à sua mensagem.

Já as cartas de Paulo (Romanos a Filemom) e de outros autores (Hebreus a Judas) ajudam a estabelecer as doutrinas da fé cristã e as instruções para a comunhão da Igreja. São, por assim dizer, a base teórica do cristianismo.

Por fim, o intrigante livro de Apocalipse encerra O Livro da Vida apontando para o futuro. Um dia Jesus retornará e criará um novo mundo para seu povo, no qual não haverá tristeza nem dor.

O que é hermenêutica?

(Respondi a sete perguntas encaminhadas pelo departamento de comunicação da Mundo Cristão sobre o tema “O que é hermenêutica?”, para publicação no site da editora. Embora não seja autoridade no assunto, acredito ter contribuído de algum modo para os interessados nessa indispensável disciplina. A entrevista deve ser publicada na semana que vem, mas já adianto o conteúdo para os leitores deste blog.)


1. O que é hermenêutica?

O termo “hermenêutica” pode ser usado em dois sentidos: 1) em referência à prática da interpretação de um texto; e 2) em referência à ciência que visa explicar o processo da prática da interpretação de um texto. Isto é, realizamos hermenêutica quando tentamos, por exemplo, desvendar o significado de um poema, e também realizamos hermenêutica quando discutimos a metodologia que usamos para tentar desvendar o significado do tal poema. (Sigo aqui uma definição próxima da apresentada por Júlio Zabatiero em seu Manual de Exegese [Hagnos, 2007, p. 155].)

Embora nem sempre tenhamos consciência disso, o processo interpretativo é necessariamente guiado por um conjunto de normas mais ou menos claras, e a hermenêutica só se realiza de fato quando esses dois aspectos do termo — a prática da interpretação e a ciência da interpretação — atuam em paralelo.

Referimo-nos à interpretação de textos, mas cabe mencionar que, hoje, a hermenêutica inclui todo tipo de comunicação, verbal ou não, nas mais diversas áreas.

2. De que forma ela se configura como um importante auxílio para o estudo da Bíblia?

Conforme mencionei acima, realizamos hermenêutica toda vez que tentamos desvendar o significado de um texto. A pergunta a se fazer é se realizamos uma hermenêutica apropriada ou não.

É relativamente mais simples interpretar objetos de uma realidade mais próxima daquela em que vivemos, em que os referenciais nos são de algum modo familiares. O que dizer, porém, de uma compilação de escritos datados de pelo menos dois milênios, com suas especificidades linguísticas, literárias e culturais, como é o caso da Bíblia Sagrada?

Para isso, necessitamos estabelecer uma metodologia que nos permita aproximar-nos do material à nossa frente com a consciência dessa abismal distância entre duas realidades tão distintas — a realidade do texto bíblico e a realidade do estudioso da Bíblia no século 21. Ao nos levar a refletir sobre nossos mecanismos de interpretação, a hermenêutica é a ponte que nos auxilia a atravessar esse abismo.

Com isso, a Palavra de Deus ganha vida para nós.

3. Quais são os principais erros que um bom estudo hermenêutico ajuda a evitar quando o assunto é a interpretação da Palavra de Deus?

Com algum receio de não ser devidamente interpretado (por favor, exercitem a hermenêutica para comigo!), afirmo que, pela minha observação, o erro mais recorrente hoje em dia na interpretação da Palavra de Deus consiste em considerá-la um texto para o qual não se aplicam os métodos da hermenêutica comum. Em vez de permitirmos que a Bíblia, em sua realidade singular, se expresse a si mesma a nós, procuramos projetar opiniões pré-formuladas no texto, a fim de encontrar nele a confirmação para nossas próprias ideias (ou doutrinas, ou expectativas). Não agimos assim, ou ao menos não deveríamos fazê-lo, ao ler um livro de história, um poema, ou a carta de um amigo — e observe que aqui me refiro tão somente a estilos literários presentes na Bíblia.

E se lêssemos as Escrituras como um livro “normal”? E se, a exemplo do que acontece durante a leitura de um grande romance, mergulhássemos tão fundo na realidade bíblica a ponto de, gradativamente, nos esquecermos de nós mesmos e de nossos pressupostos? Nesse sentido, o que a hermenêutica apropriada pode fazer por nosso estudo da Palavra de Deus é atenuar nosso egoísmo natural e abrir-nos para as incontáveis riquezas que só estarão acessíveis na medida em que voltamos o olhar para o texto propriamente dito.

Ou, como escreveu Hans-George Gadamer, um dos maiores expoentes da hermenêutica, em sua obra clássica Verdade e Método I, “Toda interpretação correta tem que proteger-se da arbitrariedade de intuições repentinas e da estreiteza dos hábitos de pensar imperceptíveis, e voltar seu olhar para as ‘coisas elas mesmas’” (Vozes, 1997, p. 355).

4. Existem pessoas que desprezam o estudo sistematizado da Bíblia e dizem que o cristão deve depender unicamente da inspiração do Espírito Santo para interpretar as Escrituras. De que forma se equivocam ao fazer tal afirmação?

Não presumo assim tão rapidamente que elas estejam equivocadas. É claro, precisamos antes de tudo definir o que significa “depender unicamente da inspiração do Espírito Santo para interpretar as Escrituras”. Se com isso nos referimos a uma hermenêutica comprometida tão somente com a Palavra de Deus e guiada pelo Espírito Santo, e não por influências externas perniciosas à intenção original do texto, não há por que discordar dessas pessoas. Mas, se com isso queremos dizer que, no estudo bíblico, qualquer tipo de esforço intelectual — necessário para a prática interpretativa — deve ser deixado de lado, então temos motivos para nos preocupar.

Na verdade, é possível que tudo isso não passe de uma compreensão equivocada da própria pessoa do Espírito Santo. Mas não creio que este seja o nosso assunto aqui.

Talvez seja válido um comentário acerca do que a pergunta chama de “estudo sistematizado da Bíblia”. Embora tenha sua óbvia utilidade, a disciplina conhecida como teologia sistemática não é, necessariamente, a mesma coisa que a hermenêutica. A teologia sistemática trata de tópicos específicos (p. ex., os atributos divinos, a escatologia, a natureza da igreja etc.) à luz do todo da Bíblia. Não é disso que se ocupa a hermenêutica, cuja principal atividade é, como já mencionamos, a interpretação de um texto e a ciência que visa explicar tal processo de interpretação.

5. Quais ferramentas devem ser empregadas por um bom hermeneuta na interpretação de um texto obscuro e difícil? Quais técnicas são utilizadas para que o estudioso chegue a uma conclusão assertiva e válida?

A meu ver, tratam-se das mesmas ferramentas e técnicas utilizadas na leitura de qualquer texto. Christopher J. H. Wright, um dos grandes estudiosos da Bíblia em nosso tempo, sugere, por exemplo, que no estudo de uma passagem das Escrituras nós sempre procuremos responder às seguintes — e básicas — questões: Quando e onde (o cenário)? O que e como (o enredo)? Quem (os personagens)? Por quê (o narrador)? E agora (o leitor)? São perguntas para as quais, na maioria das vezes, o próprio texto trará respostas e que muito auxiliarão num entendimento razoável de seu significado.

É evidente que, no caso de passagens muito obscuras e difíceis, pode ser útil recorrer a materiais de auxílio escritos por especialistas e/ou a Bíblias com traduções mais acessíveis e em linguagem contemporânea. O importante é evitar procurar significados ocultos fantasiosos e simplesmente admitir que, para alguns casos, não há conclusões assertivas. Isso, no entanto, parece ser mais a exceção que a regra.

6. Quais conselhos daria a quem está dando os primeiros passos nos estudos da hermenêutica?

Mais que uma lista sobre o que se deve fazer na interpretação de um texto, sugiro uma relação de práticas a se evitar. Tomo por base as palavras do prof. Estevan Kirschner, coordenador do projeto de tradução da Nova Versão Transformadora (NVT) e um dos principais teólogos do país, numa brilhante palestra concedida no Congresso Sepal 2017 acerca da — vejam só — simplicidade da Bíblia.

Em geral, o prof. Kirschner diz que devemos romper com ao menos quatro tipos de leitura da Bíblia (cito aqui de memória):

1. A leitura dogmática, isto é, aquela que procura encaixar o texto bíblico dentro de uma doutrina pré-definida. É o risco de ler a Palavra de Deus sob a ótica de um dogma, quando o oposto é que deveria ser feito.

2. A leitura antropocêntrica, isto é, aquela que se ocupa de procurar o que a Bíblia tem a dizer sobre mim e para mim. A grandiosa revelação histórica de Deus se torna, nessa leitura, uma mensagem meramente direcionada para meus problemas e anseios pessoais.

3. A leitura fragmentada, isto é, aquela que se fundamenta em passagens isoladas e ignora o contexto maior das Escrituras. Uma série de implicações equivocadas e contraditórias costuma surgir desse tipo muito comum de leitura.

4. A leitura abstrata, isto é, aquela que se dedica a conceitos filosóficos e teológicos que, na verdade, não têm base concreta nem na realidade e muito menos na própria Bíblia. Torna-se algo etéreo, sem qualquer consequência para a vida cristã.

Ao evitar esses quatro tipos de leitura e atentar para o texto propriamente dito, acredito que estaremos bem próximos de interpretar corretamente a Palavra de Deus. Ela é muito mais simples do que às vezes fazem parecer.

7. Quais livros e autores recomenda?

Entendendo a hermenêutica nos dois sentidos acima mencionados, sugiro a leitura de duas classes de livros: uma dedicada à ciência da interpretação, e outra dedicada à prática da interpretação.

No primeiro caso, considero Verdade e Método I (Vozes, 1997), do já citado filósofo Hans-Georg Gadamer, a obra mais importante sobre hermenêutica disponível em língua portuguesa. Mas, para conhecer os principais nomes e movimentos da prática de interpretação de texto, sugiro Teoria da literatura: Uma introdução (Martins Fontes, 2006), de Terry Eagleton. Embora seus juízos a respeito dos autores mencionados sejam por vezes bem enviesados, Eagleton tem uma capacidade formidável de sintetizar diferentes escolas e pensamentos.

Tratando especificamente da interpretação das Escrituras, destaco Convite à Interpretação Bíblica, de Andreas Köstenberger e Richard Patterson (Vida Nova, 2014), cujo sagaz subtítulo — A tríade hermenêutica: história, literatura e teologia — já sinaliza sua interessante proposta.

Para uma leitura mais intimista, indico Maravilhosa Bíblia, de Eugene Peterson (Mundo Cristão, 2008), uma belíssima obra que merece ser lida e relida continuamente.

Por fim, no que diz respeito a autores que praticam uma hermenêutica muito esclarecida, há diversos nomes importantes, mas sugiro em especial as obras de N. T. Wright, como Simplesmente cristão (Ultimato, 2008) e Paulo: Novas perspectivas (Loyola, 2009). É fascinante como, em seus escritos, ele interpreta com notável competência e frescor pontos basilares da teologia bíblica e da fé cristã.

Dois espíritos

Dois espíritos se digladiam pelo controle do meu ânimo nestes tempos tão desanimadores: o espírito do equilíbrio e o espírito do radicalismo.

Ambos nascem, por certo, de uma sensação de inquietação, que clama por mudanças. Refiro-me aos descaminhos da política nacional? Sim, mas não só. O que me perturba ainda mais é a promoção consciente da barbárie, que por vezes parece tão grave quanto a barbárie em si. Os tais valores da civilização, que imaginávamos enraizados, são abertamente descartados, e indivíduos de conduta pública nada condenável não se furtam de glorificar atos os mais absurdos em favor de conceitos distorcidos de justiça e moral.

Daí surge, então, o espírito do equilíbrio. É dele que vem a proposta do diálogo, do esfriamento dos antagonismos mediante uma argumentação pacífica e respeitosa. Raciocinemos, pede o espírito do equilíbrio. Ouçamos o que dizem os especialistas. Não nos deixemos tomar pelas emoções, mas usemos a lógica. Há uma saída, e para ela não necessitamos destruir tudo que até aqui foi construído.

Neste exato momento, a voz insidiosa do espírito do radicalismo se faz ouvir. Seu tom é, ao mesmo tempo, contestador e zombador. Novamente?, ele pergunta. Não tem sido sempre assim? Promessas de mudança, e no entanto apenas ajustes cosméticos, que nunca atendem às demandas reais! Logo adiante, tudo voltará ao mesmo ponto inicial. Não percebe que não temos tempo a perder?

E, admito, não sei a quem dar ouvidos.

Por uma disposição, digamos, de natureza pessoal, tendo a preferir a argumentação à imposição. Sou avesso ao entusiasmo desmedido, e acredito numa sabedoria fundamentada. E, todavia, que admiração sinto pela pureza de princípios, pela negação às concessões, enfim, pela originalidade de pensamento!

Quão plausível, contudo, é essa fidelidade extrema a ideais que, na prática, nunca foram implementados? Se analiso, por exemplo, reivindicações como as dos liberais mais ferrenhos, devo me perguntar: em que ponto o estado se torna realmente mínimo, a ponto de garantir a própria sustentação do liberalismo e não descambar para uma espécie de anarquismo ultracapitalista? Ou, no caso oposto, cabe questionar aos propositores da verdadeira esquerda: qual a solução real para estabelecer uma sociedade que ultrapasse a divisão de classes sem que haja, para isso, a paradoxal elevação de uma classe à condição de guia para as demais?

Não sou ingênuo. Sei que há teorias a perder de vista para responder a essas indagações. No meu entender, porém, a maioria delas — seja no âmbito político-econômico, como no exemplo dado, seja em outros tantos âmbitos, como o filosófico, o teológico, o científico — parece pressupor algum grau de determinismo, e é então que o espírito de radicalismo dentro de mim se arrefece. Soa-me ilusória qualquer afirmação de que, sob determinadas condições, determinados resultados serão obtidos, porque é o mesmo que se arvorar uma prerrogativa divina, que controla todas as probabilidades. Neste mundo caótico, em que infinitos fatores impactam e transtornam o rumo da vida, nada parece mais falso.

A atração da argumentação radical reside justamente em sua implausibilidade. Uma vez que é impossível reunir as condições necessárias para sua concretização, ao espírito do radicalismo sempre restará clamar pela possibilidade de um novo confronto. É um poço profundo que levará à desilusão, mas ao menos os tijolos que circundam o poço durante a queda reluzem com o verniz do idealismo.

Isso significa que, neste embate pelo meu ânimo, o espírito do equilíbrio obteve vitória? Bem que poderia ser. Mas, falemos com sinceridade: o que pode fazer o equilíbrio diante da hipocrisia, da corrupção, da barbárie? Não é uma ilusão — talvez até mais perigosa, porque sutil — imaginar que o diálogo moderado alcançará algum tipo de resultado neste mundo em que, insisto, se caracteriza mais pela aleatoriedade do que pela junção harmônica de fatos?

Então, levantando-se do poço da desilusão, o espírito do radicalismo sussurra astutamente: e se for necessário um abalo sistemático para, enfim, obter-se o mínimo de equilíbrio?

Reinicia-se, assim, o embate, e não será desta vez que a minha mente combalida poderá descansar. Devo, à maneira de um pragmático, agir apenas com base nas minhas possibilidades imediatas? Ou, então, devo insistir no valor das ideias puras, porque ao menos assim tenho um alvo, um propósito a me animar? E se, afinal, tudo isso não passa de uma falta dicotomia? São estas as perguntas para as quais venho procurando respostas, e até agora nenhuma solução simples se apresentou.

O pacto

Crédulo vou, criado de ator
— nos autos, nos traços, nos rastos —;
Da moral, docente,
Do social, decente,
A partilhar o pão da indignação,
Com que rompo o cordão
Dos princípios que professo em vão:
Saúdo-te, hipocrisia!

Célebre sou, amado de ardor
— dos ratos, dos troços, dos restos —;
Do oral, serpente,
Do astral, veemente,
A frequentar o salão da nação,
De onde abduzo o filão
Das migalhas que emporcam seu chão:
Saúdo-te, agonia!

Carcomido estou, ó fiador
— dos ricos, dos mitos, dos séquitos —;
Do mal, semente,
Do final, fervente,
A consumir o místico pagão,
Sobre o qual pende o brasão
Das vitórias que alcança a tentação:
Saúdo-te, filha minha!

Súditos de qual rei?

Seja você um pregador cheio de orgulho espiritual,
Seja você um vereador a aceitar grana adicional.
Alguém você vai ter de servir.
Pode ser o diabo ou pode ser o Senhor
Mas alguém você vai ter de servir.
“Gotta Serve Somebody”, de Bob Dylan

 

Não há como escrever isto sem que soe como escárnio, mas é a melhor figura que encontro para descrever o Brasil regido por nosso bafientíssimo e mofentíssimo atual presidente: como o fermento leveda a massa, assim também as potestades diabólicas se alastraram em todas as instâncias deste miserável país, que em nenhum momento se opôs ao pacto fáustico de entregar a própria alma — todo o seu ser vital — em troca das seduções do poder político/econômico, pacto este que não teve um princípio bem definido e, ao que parece, não tem igualmente prazo estabelecido para alcançar sua consumação plena. É uma engenhosa tragédia premeditada pelo mestre dos disfarces, o pai da mentira, o desgraçado blasfemador que, orgulhoso como é, não se furta a ostentar sinais de sua habilidade para todo olho que estiver disposto a ver.

Apresso-me em esclarecer — posto que a ambiguidade é artimanha própria do maligno — que não tenciono identificar o infame presidente da República com as forças infernais. Pelo contrário, creio que o drama é ainda maior e mais antigo: o engano é coletivo, e não individual. Atraídos pelas promessas da resolução e da vindicação, depositamos repetidamente nossos compromissos morais junto ao altar do tentador-mor e os sacrificamos, porque do topo do alto monte avistamos todos os reinos do mundo e sua glória. A marionete que hoje se põe à frente de nossas corrompidas instituições é tão somente um representante de quem somos e daquilo em que acreditamos. Ainda que se troque os títeres, permanece ali o titereiro, sustentado pelas nossas moedas invisíveis e inflacionadas.

Como é que nos deixamos enredar com tamanha condescendência? Onde se achavam os melhores de nós, para nos alertar e nos prevenir? A face mais desencorajadora dos tempos em que vivemos seja, talvez, a fragilidade demonstrada por aqueles que, até então, ocupavam bravamente as cadeiras do discurso ético — destronados hoje por sua própria inaptidão para enxergar os movimentos sutis do enganador. Para estes, a névoa se fez ainda mais espessa, e muitos ainda persistem em perseguir a luz do mesmo farol em que suas chalanas colidiram, em primeiro lugar.

Ora, recorro a ilustrações porque eu, também, caminho em meio às densas trevas da dissimulação, um tanto fatigado e acovardado, esperando que o destino se encarregue de agir em meu lugar e, assim, permita-me preservar os privilégios que a hipocrisia me oferta. Quão miseráveis somos, reféns de migalhas!

E, no entanto, devo ter um mínimo de ousadia e apresentar a acusação: o erro mais grave coube a nós, cristãos, quando, orientados por uma indignação teatral, desprezamos o reinado da mansidão e da compaixão e, tomados pelo desejo de relevância secular, caímos justamente diante das mesmas tentações que o nosso Senhor rejeitou de modo tão veemente no deserto ao fustigar o adversário com o açoite da verdade de que só há um Rei neste universo e só a ele devemos nos prostrar e adorar — e uma adoração não em nossos estúpidos termos, com base em valores por nós mesmos criados, mas nos termos dele, do Deus que ama os humildes de espírito e que, em sua absoluta santidade, nada tem que ver com a mesquinhez de nossas contendas políticas e ânsias materiais.

Reflitamos, meus irmãos na fé, se tem sido válido incitar o ódio, provocar a zombaria, suscitar a divisão — e, com isso, transgredir os ensinamentos que regem a vida de súdito do único e verdadeiro Rei —, tudo em nome de uma glória fosca, inerte, que só nos afastará da luz sofredora e vivificadora de Jesus e nos aproximará do individualismo desenfreado, cujas armas letais fazem tombar diariamente tantos de nós. Sejamos corajosos enquanto é tempo e dediquemos tudo que somos àquele que é Senhor de tudo que existe. Não entreguemos o controle de nossa alma aos poderes de Satanás, mas imitemos a abnegação sacrificial do Cristo, amando-nos uns aos outros como ele nos amou.

Noutras palavras, atendamos ao convite para entrar no reino de Deus — nem que, para isso, tenhamos de, finalmente, deixar para trás o reino do maligno.

As flores de abril

Continuo a escrever — e a reescrever — algumas reflexões sobre o conteúdo denso do cristianismo, conforme mencionei no final do último post. É mais difícil do que eu imaginava. As implicações de um pressuposto logo demonstram que o tal pressuposto não era assim tão sólido, e é preciso recomeçar, muitas vezes, do princípio. Será que tenho coragem de expor as conclusões a que tenho chegado acerca daquilo que é tido como fundamentos da fé? Sou editor de uma casa de publicações de linha protestante. Há uma reputação (?) a manter.

***

Uma crise de bronquite me acometeu logo após retornarmos da casa de nossos pais, no interior do estado, o que me impediu por algum tempo de atender às demandas deste bem precioso que se chama rotina. Os remédios para o tratamento embotam a mente, e não resta muito a fazer que não deitar-se e contemplar a própria fragilidade. Na infância, por causa da bronquite, pernoitei em hospitais com mais frequência que o desejável para uma criança. Agradeço a Deus pelo cuidado terno que ele sempre me dispensou por meio da família, ontem e hoje.

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É possível viver publicamente sem alguma medida de dissimulação? Se eu rebater toda afirmação categórica que é dirigida, de modo direto ou indireto, contra as minhas convicções, logo qualquer convivência respeitosa e civilizada se tornará impossível. Calar-se, no entanto, não configura hipocrisia? Não sei dizer. O que me parece é que chegará um momento em que eu não terei sobre o que conversar com quem já não me conheça verdadeiramente e há muito tempo.

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É irônico: nunca fui o maior apreciador do recém-falecido Belchior justamente por uma questão de conflito de gerações. Ele é o compositor predileto de meu pai, e sempre o associei a um imaginário antiquado, quase hippie, que nada tinha a ver comigo e com minhas preocupações. Um dia, porém, já vivendo em São Paulo com a Tabatha, distantes de toda a nossa família, ouvi “Alucinação” (“e a solidão das pessoas dessas capitais”), e tudo passou a fazer sentido para mim. Assim como Belchior, somos todos estrangeiros e peregrinos neste mundo, que um dia também passará.

Conteúdo e forma

Em tempos de tão elevada e generalizada suspeição, como expressar adequadamente o que se crê por verdadeiro? Afirmar a possibilidade mesma de que verdade seja um conceito efetivo, alcançável, e não uma abstração condicionada por sistemas de interpretação, esse já é um árduo desafio. Tão logo se inicia a apresentação, a mensagem depara com o muro da desconfiança, composto tanto de tijolos inflexíveis como de uma fluida argamassa. O que fazer para superar tal obstáculo?

Não é tão simples entender o processo de assimilação de uma mensagem. Quem a recebe — e, de certo modo, também quem a transmite — não pode realizar, num primeiro instante, o distanciamento necessário, isto é, o olhar não envolvido, desinteressado, que se permite fundir-se àquilo que está sendo revelado sem emitir julgamentos antecipados e/ou definitivos. Todos carregam consigo aquilo que Hans-Georg Gadamer, o principal nome da hermenêutica filosófica do século XX, chama de o “todo da experiência do homem no mundo”, ou seja, essa soma de modos de vida inerentes a cada indivíduo que impede a total suspensão do juízo no exercício da interpretação.

Cabe, no entanto, a pergunta: por que se deveria almejar essa suspensão do juízo? Acaso ela é possível, ou mesmo desejável?

A recepção — e também a transmissão — de uma mensagem só se dá dentro de uma linguagem previamente definida, que não apenas providencia os recursos necessários — as palavras, as imagens, os sons — mas também faz, ela própria, parte do conteúdo do que se produz. Fora dessa realidade, e dos significados dela apreendidos, não existe conexão que possa, a priori, ser estabelecida. Sempre haverá limites específicos, portanto, no que se refere à experiência interpretativa primeira, e bem-aventurado é aquele que estiver munido dos recursos que melhor potencializam e aceleram a compreensão. Numa vida que visa àquilo que o teólogo alemão Dietrich Bonhoeffer denominou “ação responsável”, não há tempo a perder.

Nesse sentido, para expor o que se toma por verdade, não é válido, então, recorrer àquelas noções já testadas e aprovadas, cujo movimento na direção daquele que recebe a mensagem se realiza sem maiores percalços? (O que equivale a, seguindo o exemplo condenado por John Locke no Ensaio sobre o entendimento humano, apelar para um conceito vago como “justiça” sem ao menos defini-lo, uma prática habitual do histrionismo jornalístico e político.) Ou, pelo contrário, não é justamente porque o que foi convencionado não mantém o frescor original que se deve, então, renovar a verdade por meio da linguagem poética? (Aqui pode-se remeter ao que Martin Heidegger tratou como “linguagem autêntica da poesia”, uma aparente preferência dos literatos e dos virtuosos que se julgam indignos da imundície do debate público.)

O que está em jogo, em suma, é a permissão à persuasão retórica, quer deliberada quer dissimulada. Houve um tempo em que, muito por influência de uma concepção de mundo positivista, com sua confiança na objetividade científica, rejeitava-se abertamente a ideia de convencimento pela capacidade de argumentação em lugar da evidência dos fatos propriamente ditos. É claro, também a verdade das ciências — naturais ou sociais — é produto retórico, mas nela o verniz da linguagem muitas vezes simulava um caráter de irrefutabilidade, sobretudo do ponto de vista leigo.

Para o bem ou para o mal, numa época em que a desconfiança impera, essa visão da credibilidade científica já não se sustenta com a mesma força. Os ditos especialistas vêm acumulando erros grosseiros de fundamentação, de descrição e de previsão, o que tem aberto espaço para um poder retórico mais veemente — ou agressivo, segundo alguns —, ainda que menos embasado numa linguagem pretensamente objetiva. O efeito prático imediato não é o mesmo, afinal?

Não sei para onde nos levará essa simplificação na apresentação do que se toma por verdade, mas admito que não vejo com maus olhos a ampla suspeição diante de tantas argumentações enviesadas cinicamente camufladas de fatos inquestionáveis. Foi essa hipócrita predisposição que corroeu em anos recentes sobretudo o jornalismo — um autoproclamado guardião da verdade —, tornando-o, na melhor das hipóteses, irrelevante, e na pior, culpado direto de muitos dos malfeitos que continuam a sobrevir à humanidade.

O risco que se corre, por outro lado, é não ter nada a oferecer em lugar. Por isso a boa retórica, por mais persuasiva que seja, não dispensa um conteúdo denso, capaz de atender às variadas e exigentes indagações daqueles que, embora desconfiados da verdade que se lhes apresenta, não descartam a possibilidade mesma de uma verdade. Para isso, não importa tanto recorrer a conceitos já estabelecidos pela linguagem ou renová-la pelo talento poético, mas sim que se conheça o mundo, que se saiba interpretá-lo, que se tenha em mente quem emite a mensagem e a quem ela se destina.

É isso que, no final, prevalecerá, e é desse conteúdo denso ideal — a verdade do cristianismo — que pretendo tratar em meus próximos textos.

Três confissões

Fui batizado e criado na fé cristã ortodoxa. Foi o que me ensinaram desde a infância e durante toda a adolescência e juventude. Mas, aos dezoito anos, quando abandonei o segundo período na universidade, já não acreditava em mais nada do que me haviam ensinado.

Não é nada improvável que os leitores deste blog se identifiquem com as palavras acima. A formação religiosa que é desvirtuada durante os primeiros anos de contato com o mundo “lá fora”, eis um processo muito recorrente, imagino eu, sobretudo entre quem se interessa por ler aquilo que escrevo aqui. Minha própria vida é um reflexo desse processo, e as implicações do que passei naquele período ainda hoje carrego comigo.

O autor do trecho destacado, no entanto, é muito mais célebre que qualquer um de nós. Trata-se daquele que é, para mim e para tantos outros, o maior escritor a ter pisado nesta terra: Liev Nikoláievitch Tolstói. A passagem abre Uma confissão, obra que ele escreveu em 1879 e que a Mundo Cristão, editora na qual trabalho, publicou em fevereiro deste ano, com tradução e apresentação de Rubens Figueiredo. É a primeira vez que o livro é lançado de forma integral no Brasil.

A possibilidade de editar uma obra de Tolstói me foi muito significativo, e até comovente. Depois da Bíblia Sagrada, Anna Kariênina talvez seja o livro que mais tenha impactado minha vida. A trajetória de Liévin, uma espécie de alter ego do autor, me fez compreender melhor a jornada que eu mesmo trilhava na época em que li, aos vinte e poucos anos. Que a resposta às indagações mais profundas da vida humana estivesse justamente naquela fé rudimentar em que eu havia sido criado foi algo transformador.

Daquele momento em diante, a literatura se tornou um dos fundamentos para minha prática cristã. O sentido que eu não havia encontrado na igreja, na universidade, nem mesmo no que eu entendia por amor, agora se desvendava para mim. E, ainda que tantos outros autores contribuíssem para essa minha re-formação, o papel mais proeminente cabia a Tolstói: A felicidade conjugal me preparou para o casamento, A morte de Ivan Ilitch me permitiu abordar a morte de frente, e o magnífico Guerra e paz fez que enxergasse a condição humana de uma ótica nova e esclarecedora.

Saindo da crise pela qual eu passava naqueles anos — uma desilusão extrema com o que oferecia a mim o presente bem como o futuro —, fui aos poucos me aproximando do tipo de verdade que unicamente a fé cristã providencia. Deus me abençoou, e poucos anos depois me vi trabalhando com livros na Mundo Cristão, um deles sendo exatamente Uma confissão, a autobiografia espiritual de Tolstói. Um ciclo havia se completado.

***

Minha vida parou. Eu podia respirar, comer, beber, dormir, porque não podia ficar sem respirar, sem comer, sem beber, sem dormir; mas não existia vida, porque não existiam desejos cuja satisfação eu considerasse razoável. Se eu desejava algo, sabia de antemão que, satisfizesse ou não meu desejo, aquilo não daria em nada.

Aclamado como gênio literário pelo mundo de seu tempo, Tolstói era, sob muitos aspectos, um privilegiado. Nascido em 1828 em Iásnaia Poliana, a propriedade rural de sua família, desfrutava ele um padrão de vida aristocrático, muito superior à do restante da desigual Rússia sob o regime czarista. Seu talento como escritor se evidenciara cedo, com a trilogia memorial Infância, Adolescência e Juventude, publicada entre 1852 e 1857, e também com seus tantos contos e artigos políticos redigidos à época.

Contudo, foram seus monumentais romances Guerra e paz (1865–1869) e Anna Kariênina (1873–1877) que lhe trouxeram renome e estabeleceram sua posição elevada no cânone da literatura universal. É extraordinária a ampla compreensão do espírito humano que Tolstói demonstrou ter nessas duas obras. Em suas inesquecíveis personagens ele retrata as muitas contradições da existência: desejo e fracasso, alegria e tristeza, bondade e maldade, tudo isso apresentado com a beleza e o juízo de alguém que, como bem definiu outro estupendo autor, Marcel Proust, escrevia como “um deus sereno”.

E, no entanto, o conforto material e o prestígio intelectual de nada serviram para aplacar a falta de sentido com que Tolstói cada vez mais se deparava em sua vida. À serenidade de seus escritos se contrapunha o desespero de seu íntimo, que o fez considerar o suicídio com frequência. Resposta alguma lhe parecia bastar, e ele havia buscado toda sorte delas, da arte à ciência à filosofia. Assim como o Kohelet, o Pregador do Eclesiastes, ele tinha tudo e não tinha nada: “Vaidade das vaidades, tudo é vaidade”.

Foi nesse ambiente espiritual desolador que Tolstói se aproximou da realidade dos mujiques, a camada mais humilde da sociedade russa. Aqueles camponeses, diante de sofrimentos muito mais concretos que os enfrentados pelo grande escritor, reagiam com uma fé simples, porém efetiva, que lhes possibilitava, afinal, viver e sobreviver. Essa revelação — e o termo aqui é usado no sentido que a religião lhe atribui — mudou completamente a vida de Tolstói.

O que Uma confissão faz é relatar, com cores muito pessoais, a jornada do autor desde o abandono da fé durante a adolescência até a redescoberta dela já na meia-idade. A obra marcou uma nova etapa de sua vida, na qual a compreensão que ele tinha do cristianismo passou a orientar não apenas seus textos, mas também suas ações. É famoso o desgosto que provocou na família quando, pouco antes de morrer, em 1910, buscou desfazer-se de suas posses e seus títulos a fim de viver de maneira mais simples e coerente com suas convicções.

***

A fé é a força da vida. Se o homem vive, ele acredita em alguma coisa. Se não acreditasse que é preciso viver para alguma coisa, ele não viveria. Se ele não vê e não entende a ilusão do finito, acredita nesse finito; se ele entende a ilusão do finito, deve acreditar no infinito. Sem fé, é impossível viver.

São comuns duas reações à história de vida relatada por Tolstói. A primeira, mais utilitarista, é a que vê em sua conversão à fé um desperdício de talento criativo, que fez do mais brilhante escritor de seu tempo um mero propagador da ingênua moralidade cristã. A segunda, mais cética, censura toda a sua busca por sentido, uma vez que a vida que nos é possível é justamente esta aqui, e é necessário desfrutá-la tal como ela se nos apresenta. O que ambas revelam, em suma, é que a fé nunca será uma resposta apropriada.

Não é tão simples contradizer essas reações. Os cristãos que procuram fazer uso da razão e da força moral para afirmar sua fé recaem no mesmo tipo de argumento que, para início da conversa, produziu a descrença original. Nem todos os saberes humanos juntos, afinal, foram e são capazes de desvendar a complexidade da fé. Porém, e nisto reside o âmago da questão, os mais simples têm acesso livre e pleno a ela. (“Em verdade vos digo que, se não vos converterdes e não vos tornardes como crianças, de modo algum, entrareis no reino dos céus.”) Pois a fé, em suma, é tão explicável quanto a falta de fé. Ela não nos dá respostas — ela é a resposta.

Quando retornei à fé, aos vinte e poucos anos, uma nova possibilidade de vida se abriu para mim. O chão em que eu pisava e o ar que eu respirava eram os mesmos, e no entanto havia algo diferente. A impressão que eu tinha era a de que novo ânimo havia sido soprado em mim, e uma nova luz me permitia ver, pela primeira vez, o verdadeiro mundo em que eu vivia. Na aparência, as coisas permaneciam iguais, mas lá no fundo eu sabia que tudo havia mudado.

Aos poucos, fui compreendendo melhor o significado da fé. Não se trata apenas de uma oposição entre realidade e ilusão, mas entre vida e morte. Embora respirasse e me movimentasse, eu estava morto. O absurdo que é existir sem vida — procurar satisfazer desejos que nunca se satisfazem, cumprir deveres que nunca se cumprem — só é suportável se considerarmos que não existe alternativa. A fé é essa alternativa, e ela refez tudo que eu sou. Sempre agradecerei a Deus por isso.

A exemplo do que ocorreu com o genial escritor russo, todos temos diante de nós a possibilidade de escapar da escuridão da existência e encontrar, de maneira definitiva, o Caminho, a Verdade e a Vida. “Viva descobrindo Deus e, então, não haverá vida sem Deus”, escreve Tolstói em Uma confissão. “E, mais forte do que nunca, tudo se iluminou dentro de mim e à minha volta, e essa luz já não me abandonou.”

Falsas promessas

Em se tratando de regularidade de publicação, qualquer promessa que eu tenha feito ou venha a fazer deve ser sempre encarada com todas as suspeitas. Por mais que procure escrever de modo rotineiro, algo sempre me impede. Por vezes inicio um texto que, logo percebo, contém implicações demais para caber em poucos parágrafos. Por vezes o tema não existe e eu tento recorrer ao noticiário, o que não faz sentido para alguém que deseja manter um blog justamente para fugir do imediatismo, e desisto. Por vezes — na maioria dos casos — eu simplesmente considero mais proveitoso usar o tempo disponível para ler em vez de escrever.

Algo virá, porém, em algum momento. Iniciei pelo menos três artigos diferentes, sobre assuntos que demandam pesquisa e concentração. Além disso, venho desenvolvendo rascunhos para uma obra literária, e já tenho páginas inteiras prontas. Espero que, em meio a tudo isso, e se a vida assim permitir, eu consiga publicar textos menos preguiçosos e inacabados por aqui.